segunda-feira, 12 de novembro de 2007
IV (Temporal)
vejo vir e vivo pelo avesso
com a contradição dos tantos versos
fecundando verbos e adereços
na pressão tão turva e incontida
desse ser que em mim somente some
quero ritmar numa batida
tudo o que me cria e me consome
eu bem sei não ser tão execrável
e quando posto em praça pública não me espanto
porquanto ouço o canto comovido e instauro
o surto onde me embalo e onde me encanto
não posso me dizer nem tão sortudo
e nem mesmo sou assim tão azarado
confundo tudo e dublo o absurdo
com a voz altissonante do meu brado
se a imagem cujo eu me vem do espelho
intenta persuadir-me pela entrega
eu jogo-a de volta pronde veio
e vivo a afirmação que em si me nega
e nessa revoada de delírios
contemplo isso que dentro em mim desperta
os versos desvairados onde insiro
os nomes da paixão que me liberta
sem mais então eu forjo a completude
para perdê-la sempre um passo a frente
trazendo seus efeitos e atitude
na luz da inspiração intermitente
ao longe alguém sempre me aplaude
e me solta mesmo quando alguém me prende
acorda o turbilhão de liberdade
neste homem que até a morte não aprende
persistindo na empreitada desmedida
tão cheia de tolice engano e afronta
está o preço que esta louca vida
cobra de mim por cada estrofe pronta
Rodrigo Bodão
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
EEEEEIIIIIIIIIIIIIAAAAAAAAAAAAA
que a preguiça é pra amanhã
e tem tempo que já nem faz tanto
tempo assim...
É hora!
É hoje!
Agora!
Peço outra
encho copo
reviro bolso
acendo cigarro
... aguardo...
Rudrig Bodado
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
Brasília, o horror e Nicholas Behr
Hoje pela manhã me embrulhava o estômago ao escrever sobre a Megaoperação no Complexo do Alemão em junho e sobre as recentes execuções na Favela da Coréia. Parei de escrivinhar por um instante e fui ler o "Prosa e Verso" (caderno literário do Globo), de sábado. A matéria principal era sobre o lançamento do livro de Nicholas Behr. Ele é um poeta que vive em Brasília e tem vários poemas que tratam da cidade, sua estética peculiar e sua sujeira intrínseca.
Conheci a obra de Behr por intermédio de uma amiga que tem muito bom gosto. Ela é de Brasília, também. Então, para as saudades (e as outras coisas) de Brasília e para a indignação do Alemão, Nicholas Behr:
O HORROR, O HORROR
como, depois de ler nos jornais a notícia
da morte do menino que foi torturado
com óleo quente para revelar o paradeiro
do pai, escrever um poema?
como se olhar no espelho?
como dividir com vocês todos
esse ar que respiramos?
como ficar indiferente e passar à próxima página?
como sair na rua e desejar bom-dia
aos que passam?
como continuar vivendo?
será que você não viu
que ainda tô vivo?
Dá pra ler trechinhos do livro dele em: http://www.linguageral.com.br/site/downloads/titulos/56.pdf
sábado, 3 de novembro de 2007
Ah, eu já sabia!
Laudo aponta execução sumária no Alemão
Laudo independente da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, feito a pedido do próprio governo do Rio, aponta que, "com grau de certeza", houve "execução sumária e arbitrária" dentre as 19 mortes que ocorreram durante operação policial, em junho, no conjunto de favelas do Alemão, na Penha, zona norte do Rio.
Segundo o documento, em ao menos duas mortes, as de José da Silva Farias Júnior e Emerson Goulart, "foram encontradas evidências de morte por execução sumária e arbitrária". O governo do Rio contesta a avaliação.
A perícia independente indicou ainda que cinco dos mortos foram atingidos por tiros de curta distância e que, em 14, foram encontrados 25 tiros que os atingiram pelas costas.
O laudo concluiu ainda que seis dos mortos foram baleados no crânio e na face, e que os 19 mortos foram atingidos por pelo menos 70 tiros, sendo 75% em regiões mortais.
A análise pericial independente da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República foi enviada ontem ao governo do Rio.
No material estudado, os peritos afirmam ter achado "argumentos para embasar a afirmação de existência de execução sumária e arbitrária, quando analisados em conjunto".
De acordo com os técnicos contratados pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, o grande número de orifícios de entrada na região posterior do corpo, os numerosos ferimentos em regiões letais e a elevada média de disparos por vítima embasam a conclusão.
Outros indicativos são proximidade de disparos, seqüência de disparos em rajada e armas diferentes utilizadas numa mesma vítima.
Ainda de acordo com os peritos, o material analisado aponta ausência de condutas destinadas à captura e ausência de indicadores de condutas defensivas por parte das vítimas.
Pergunto: a situação do Rio de Janeiro melhorou depois das 19 execuções no Alemão, em junho? O Estado já ocupou o Complexo? Se não, quando vai conseguir ocupar "na bala"?
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
"Aborto para conter a violência". Aaahhh, tá difícil...
Do site do G1:
O governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), 44 anos, propõe a legalização do aborto como forma de conter a violência no Rio de Janeiro.
Em entrevista ao G1 na última segunda (22), ele se valeu das teses dos autores de "Freakonomics", livro dos norte-americanos Steven Levitt e Stephen J. Dubner, que estabelece relação entre a legalização do aborto e a redução da violência nos EUA.
"Tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal", declarou.
Para o governador, os confrontos com criminosos nas favelas do Rio só vão terminar "quando a ordem pública puder chegar através de várias maneiras, dentre elas com o policial podendo andar fardado em qualquer lugar".
"Enquanto isso não for realidade, continuará havendo confronto. Isso gera morte", declarou Cabral, ao G1.
Putaqueopariu!!!
terça-feira, 23 de outubro de 2007
Complementando a Clê com sua (nossa!) indignação
Escutei esse comentário do seu Beltrame hoje pela manhã, via rádio CBN. Como já dito, era uma preocupação do tal a “tática” dos traficantes de levar para favelas da Zona Sul do Rio os seus “arsenais”. Lá seriam mais complicadas as ações violentas da polícia, por estarem mais "visíveis".
Aí o apresentador, Sidney Resende, complementou (não necessariamente com essas palavras que a memória aqui num é das melhores): “Embora pareça um comentário preconceituoso, isso é um fato. Copacabana tem um índice de homicídios de uma cidade européia, cinco homicídios para cada 100 mil habitantes’ (e isso não poderia mudar, porque Copacabana é ponto turístico para estrangeiros, e também porque esse índice não pode aumentar). Aí continuou o apresentador: “Além de quê um tiro nesse bairro vai ter uma repercussão muito maior pela imprensa”. Porra, isso justifica alguma coisa?
Como você, cara Clê, infelizmente também já sabia dessa “divisão regional”. Já ano passado, num seminário sobre mídia e violência no CESeC (que inclusive lança um livro sobre o tema nessa segunda 29), um jornalista que participava, repórter do grande Jornal Nacional da nossa querida rede Globo, falou, tranquilamente: “Uma morte na Lagoa ou Leblon é notícia. Em bairros pobres não. Isso é notícia e acabou – morte na Baixada [Fluminense] é comum, é corriqueiro, não interessa. Essa é a nossa realidade”.
Está aí. O preconceito vem da classe dos jornalistas (ô raça!) e do Estado (sem comentários). O nosso amigo do JN ainda falou, à época, que o compromisso do jornalista e do jornalismo é com a sociedade. E essa era a justificativa de que uma morte em bairros nobres é mais incomum, e por isso tem-se que dar um destaque maior. Estávamos em época de morte por acidente de carro de jovens na Lagoa (devia ter um mês do acidente e ainda era comentado) e da morte de sete jovens numa favela (que agora não me recordo, principalmente porque pouco foi falado – e no JN, O Globo, nada comentado).
O compromisso desses jornalistas (não vamos generalizar...) é com a sociedade que compra jornais, desses camaradas que escrevem comentários em sites do tipo “bala neles”, “mora na favela tem mais é que morrer”, “é favelado é conivente com o tráfico”, e daí pra pior. A questão é como remodelar esse modelo de comunicação. A maior parte da sociedade não é representada pela nossa mídia tradicional, não tem valor nenhum prêsse povo.
Já no artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (de 1948), lemos o seguinte: “Todo homem tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras”.
Em relação à comunicação e à liberdade de expressão em especial, esses direitos são cada vez menos assegurados. Isso porque existem diversas dificuldades para uma comunicação livre, que vai desde burocracia (como para abrir uma rádio comunitária) como por questões financeiras (para imprimir um veículo, financiar um sítio na internet, etc.), passando naturalmente pela questão política do poder.
E aí, qualé a alternativa? É preciso pensar em novas formas de comunicação, que não dependa dessa grande mídia, já viciada e com interesses muito bem definidos. É preciso uma nova comunicação, que venha de baixo para cima, e não uma comunicação impositiva como estamos desde sempre acostumados. É preciso também uma reflexão sobre os atuais meios de comunicação para a proposição de novas iniciativas que tenham o caráter de inovar e valorizar os espaços e os saberes populares, ou seja, veículos de comunicação que tenham como principal preocupação a vida das pessoas, os direitos humanos: para que a informação seja democratizada e não tratada como simples mercadoria.
Mas uma “transformação” desse porte necessita da participação da sociedade civil, a mesma que tece comentários absurdos por sites internet a fora. Mas essa minoria que sobressai, que se dizem o senso comum, como dito, são minorias. Uma hora a paciência acaba, a exploração e desrespeito chegam no limite. Aí podemos impulsionar um verdadeiro exercício de cidadania, com participação desses moradores hoje considerados inferiores. Pra isso, temos que pensar mesmo em ações, projetos, programas, sei lá o quê, que possibilitem o acesso de todos aos bens e mensagens, pelo direito de receber, interpretar e repassar informações com suas visões de mundo, com seus olhares, com seus conceitos, ou seja, a participação democrática (mesmo!) de todos os setores sociais na construção dessa nova sociedade.
Não podemos esquecer ainda do papel da educação, que deve ser redefinida, fazendo com que seja capaz de englobar a revolução informacional, utilizando-se da mídia e neotecnologias da comunicação no ensino. Este é mais um passo importante para se ter uma noção crítica da mídia e para a produção de veículos de comunicação democráticos – em jornais experimentais, programas de rádios nas escolas, blogs, sites, vídeos. Com esse novo “ativismo”, talvez seja possível uma nova participação política, ligada à formação de aparatos cooperativos críticos de produção de comunicação, e portanto de uma nova cidade, que seja mais humana e solidária.
INDIGNADA!
No mundo de hoje, eu diria que o que não falta é motivo pra indignação. Aqui, pertinho de você, irá sempre brotar uma indignação.
Ontem e hoje me surgiram duas. Profundas. Doloridas. Daquelas que faz dilatar a veia do pescoço, num misto de raiva e inquietação.
Da série "uma indignação pra chamar de sua":
1. Proibiram a venda de cerveja no Maracanã. Ou melhor, para aqueles que pagam para ir ao Maracanã. Pois, no camarote, o reduto dos globais e boçais, a cerveja é liberada e possivelmente, de graça. Exatamente, caro leitor. Povão não pode beber, senão faz confusão. As celebridades podem, afinal, são finas e educadas, bebem com moderação.
Eu não sabia disso, mas me contaram ontem - Bodão, inclusive ficou sedento para escrever sobre isso, já que ele não fez, externo minha indignação de forma mais grosseira. Depois de acabarem com a geral, de fecharem o anel superior do estádio para o curral vip, agora limaram a venda da loira gelada, do maravilhoso suco de cevada, do lúpulo que alimentava Noel Rosa, no Maraca. E vamo combinar, futebol sem cerveja, até os boçais do curralzinho, sabem que não dá. O cara que me contou, definiu de forma clara: "é o processo de elitização do Maracanã".
2. O Secretário de (In)Segurança Pública, disse hoje na segunda edição do RJTV que a polícia anda preocupada com a migração de traficantes pra Zona Sul da cidade, afinal "um tiro em Copacabana é uma coisa, um tiro na Coréia, no Alemão, é outra". Como diria um amigo meu, esparrou! O secretário deixou bem clara qual a lógica de atuação da polícia: na periferia entra matando, na Zona Sul, há que se ter cuidado. Não que eu não soubesse, mas assim, escancarado, é indignante. Depois, tentando consertar, o babaca disse que é porque em lugares como Copacabana, a polícia está mais perto da população. Não sei, então, o que significam os 100mil moradores do Complexo do Alemão para o secretário. Ou melhor, sei. Como bem disse a professora Adriana Facina, em ótimo artigo - leia aqui - sobre a operação na Coréia, são seres humanos supérfluos.
Maraca sem cerveja e o Estado assumindo que as ações da polícia são definidas pela origem social e pelas condições econômicas. Indignação pra dar e vender.
Dizia Ernesto Che Guevara: "Se você treme de indignação perante uma injustiça no mundo, então somos companheiros".
Senador Camará, Favela da Coréia, 18 de outubro de 2007
A primeira impressão que ocorre é que as imagens dessa execução elucidariam a forma como se desenvolvem tais operações e incursões policiais, denunciando uma conduta excessiva e arbitrária desses atiradores. Esse flagrante inquestionável, imaginava-se inicialmente, mobilizaria críticas dos diversos setores da sociedade e poder público. No entanto, as coisas não transcorreram dessa forma.
Por incrível que pareça, as autoridades competentes passaram a apresentar argumentos para mais esta carnificina, que resultou em doze mortos, dentre eles um menino de quatro anos, atingido dentro de casa. As execuções foram justificadas por conta dos indivíduos haverem supostamente atirado contra o helicóptero.
Do nível estadual ao federal, houve a justificativa e a afirmação de que não haverá recuo e que a lógica do confronto será levada adiante, apesar do saldo de mortos, em um discurso entremeado de ironias.
Mas não, pensava-se ainda, a opinião pública certamente se posicionará de forma contrária a essa política de extermínio, reagindo à truculência e crueldade expostas por essas imagens. Porém, o que encontramos na maioria das cartas de leitores, dos editoriais e dos comentários veiculados pelos principais meios de comunicação são mensagens de apoio e congraçamento à forma como o governo está combatendo e reprimindo esses grupos criminosos.
Mais uma vez, essas mensagens são veiculadas junto a ataques às organizações da sociedade civil atuantes na defesa e promoção dos direitos humanos. Fica-se com a impressão de que esses cidadãos não têm noção do que estão defendendo ao preconizar a perpetuação desses métodos e dessa lógica do confronto e do extermínio.
Ainda que isso signifique, do lado da opinião pública, uma reação desesperada por parte de pessoas diariamente acuadas pelo grau de violência vivido na cidade, não é preciso ser especialista para saber que a constante violação dos direitos humanos e a exacerbação da cultura da morte e do genocídio têm como produto mais mortes, mais revolta, mais vidas perdidas.
No final do século passado, uma figura messiânica, com ares de profeta bíblico, perambulava pelas ruas da cidade, especialmente nos arredores da zona portuária e Leopoldina, escrevendo em muros e pilares de viadutos mensagens para um mundo melhor. Popularmente conhecido como o Profeta Gentileza, converteu sua loucura e mendicância em murais onde ainda se encontram dizeres como “violência gera violência, amor gera amor, gentileza gera gentileza”. Frases de conteúdo simplório, pueril, ingênuas de tão óbvias.
Entretanto, o quadro macabro vivido na cidade e a política do extermínio defendida ostensivamente por formadores de opinião, políticos e dirigentes governamentais somente demonstra o grau de insanidade que chegamos, a ponto de associarmos inteligência e eficácia policial com execuções sumárias, crianças baleadas e a violação do direito humano mais fundamental – a vida.
Rodrigo Bodão
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Tropa da Zelite
Parece simpatia ou macumba. Tropa de Elite me persegue - e a todo morador da cidade do Rio de Janeiro, que vive em meio a uma guerra civil onde a polícia fuzila de helicóptero traficantes de bermudas e desarmados, ou seja, apenas o Capitão Rambo-Nascimento será capaz de nos salvar.
Minha indignação, que parece repentina mas não é, é motivada pela escolha do nome da minha turma de graduação, que se forma em breve. Isso mesmo. O nome será Tropa de Elite. Diante disso, eu bem sugeri o Capitão Nascimento como Patrono - pelo menos ele é baiano - mas, me informaram que ele matou a gêmea má e morreu.
Parem o mundo que eu preciso descer. Como bem disse Bodão, de tão mal, já não sabemos distinguir o que é uma tropa de elite (ô palavrinha maldita).

