quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Tropa da Zelite
Parece simpatia ou macumba. Tropa de Elite me persegue - e a todo morador da cidade do Rio de Janeiro, que vive em meio a uma guerra civil onde a polícia fuzila de helicóptero traficantes de bermudas e desarmados, ou seja, apenas o Capitão Rambo-Nascimento será capaz de nos salvar.
Minha indignação, que parece repentina mas não é, é motivada pela escolha do nome da minha turma de graduação, que se forma em breve. Isso mesmo. O nome será Tropa de Elite. Diante disso, eu bem sugeri o Capitão Nascimento como Patrono - pelo menos ele é baiano - mas, me informaram que ele matou a gêmea má e morreu.
Parem o mundo que eu preciso descer. Como bem disse Bodão, de tão mal, já não sabemos distinguir o que é uma tropa de elite (ô palavrinha maldita).
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
Hay que endurecerse sin perder la ternura
Che Guevara tem uma bela biografia. Foi um grande homem, em todos os sentidos. Por isso, acho que deve servir de inspiração e para reflexão. De tudo que li sobre ele nos últimos dias - resultado da polêmica levanta por "VEJA, mas não leia" - segue o que achei menos saudosista e mais interessante. Com a palavra, Emir Sader:
CHE
Há personagens com uma tal estatura histórica que, independente dos adjetivos e de todos os advérbios, ainda assim não conseguimos retratá-los em nada que possamos dizer ou escrever. O que falar de Marx, que permaneça à sua altura? O que escrever sobre Fidel?Hegel dizia que existem personagens cuja biografia não ultrapassa o plano da vida privada, enquanto outros são os personagens cósmicos, estes cujas biografias coincidem com o olho do furacão da história.
O Che é um destes personagens cósmicos. Basta dizer que, independente de qualquer campanha publicitária, sua imagem transformou-se na mais vista do século XX e assim continua neste novo século. Nenhum esportista, artista ou músico, mesmo com bilionárias promoções pelo mundo globalizado afora, se mantém num lugar parecido. O Che veio para ficar.
Novas gerações, nascidas depois da morte do Che, continuam identificando-se com sua imagem, com seu sentimento de rebeldia, com sua coragem, com sua luta implacável contra toda injustiça.
Não vou gastar palavras inúteis para falar do Che. Basta reproduzir algumas das suas frases, que selecionei para o livro “Sem perder a ternura”.
“A única coisa em que acredito é que precisamos ter capacidade de destruir as opiniões contrárias, baseados em argumentos ou, senão, deixar que as opiniões se expressem. Opinião que precisamos destruir na porrada é opinião que leva vantagem sobre nós. Não é possível destruir as opiniões na porrada e é isso precisamente que mata todo o desenvolvimento da inteligência...”
“Nós, que, pelo império das circunstâncias, dirigimos a revolução, não somos donos da verdade, menos ainda de toda a sapiência do mundo. Temos que aprender todos os dias. O dia que deixarmos de aprender, que acreditarmos saber tudo, ou que tivermos perdido nossa capacidade de contato ou de intercâmbio com o povo e com a juventude, será o dia em que teremos deixado de ser revolucionários e, então, o melhor que vocês poderiam fazer seria jogar-nos fora...”
“Deixa-me dizer, com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é feito de grandes sentimentos de amor.”
“Nosso sacrifício é consciente. É a cota que temos de pagar pela liberdade que construímos.”
“Muitos dirão que sou aventureiro, e sou mesmo, só que de um tipo diferente, destes que entregam a própria pele para demonstrar suas verdades.”
“Sobretudo, sejam capazes de sentir, no mais profundo de vocês, qualquer injustiça contra qualquer ser humano, em qualquer parte do mundo.” (Carta de despedida aos filhos)
“É preciso endurecer, sem perder a ternura, jamais.”
“Que importam os perigos ou os sacrifícios de um homem ou de um povo, quando está em jogo o destino da humanidade.”
“É um dos momentos em que é preciso tomar grandes decisões: este tipo de luta nos dá a oportunidade de nos convertermos em revolucionários, o escalão mais alto da espécie humana, mas também nos permite graduar como homens.”
“Nós, socialistas, somos mais livres porque somos mais completos; somos mais completos porque somos mais livres.”
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
Tropa de Elite?????
Dessa forma, procurar-se-á abordar aqui a forma como essa obra expõe, evidencia, relaciona e apresenta os diversos atores sociais envolvidos na trama e no cotidiano real da cidade, buscando ampliar de forma qualificada esse debate.
Partindo do ponto de vista da personagem do Capitão Nascimento, construído pelo diretor a partir de entrevistas com policiais e oficiais do Bope, podemos perceber elementos que nos permitem deduzir uma visão largamente difundida nesse grupamento e na sociedade de modo geral.
Um primeiro objeto de análise diz respeito à forma caricatural como são retratados os movimentos sociais e as Ongs. No filme, a sociedade civil aparece como uma reunião de estudantes e voluntários deslumbrados que, por um lado, realizam trabalhos com crianças, distribuem camisinhas, dentre outras ações de caráter educativo e assistencial, e por outro, servem de cabo eleitoral de candidatos políticos e se aproveitam de sua proximidade com o tráfico de drogas para se transformarem, eles mesmos, numa espécie de filial junto a outros jovens universitários pertencentes à classe média e alta.
Muito pelo contrário, grande parte das organizações da sociedade civil se constituem, na atualidade, como um instrumento de diálogo e articulação entre o poder público, a iniciativa privada, organismos de cooperação internacional e as diversas instituições comunitárias para formulação, proposição, implementação, monitoramento e avaliação de projetos, programas e políticas públicas, exercendo o controle social para a efetivação dos princípios constitucionais democráticos.
No entanto, quando assistimos declarações afirmando que essa abordagem perniciosa do filme condiz com a realidade dos movimentos e organizações sociais, fica evidenciada nestes discursos uma tentativa de desqualificar as instituições e os trabalhos voltados para a defesa e promoção dos direitos humanos, deslegitimar o controle social exercido, e, dessa forma, desmoralizar a própria democracia.
Outro ponto, politicamente lamentável do filme é a forma como se demoniza o usuário de drogas, como o principal financiador e culpado do tráfico e dos crimes a ele vinculados. Enquanto o próprio governador já se posicionou publicamente a favor do debate e da revisão da legislação penal relacionada, quando especialistas de todo o mundo apontam a perversidade e inadequação do enfoque policial do uso de drogas, sendo antes uma questão diretamente implicada no âmbito da Saúde Pública, novamente vemos ressurgir essa categorização maniqueísta e superficial do problema.
De certa forma, o que fornece veracidade ao discurso apresentado pelo policial fictício é o processo de treinamento e formação pelo qual os componentes devem passar para se tornar um ‘caveira’. Treinamento este, apresentado em uma versão talvez até mais branda que a realidade, cujos motes centrais são a exacerbação da cultura militar e a celebração da morte, cantada nos exercícios e reafirmada nas cruzes fincadas a cada abandono dos chamados fracos, que desistem de se tornarem assassinos frios, cruéis e impiedosos em suas incursões e confrontos.
A passagem por esse treinamento, de certa forma, autoriza dizer que toda essa visão simplista, superficial, maniqueísta e beligerante, deriva dos pensamentos de um daqueles formandos. Ponto de vista calcado numa gama de preconceitos e posições preconcebidas, acerca dos estudantes, das universidades e, principalmente, dos moradores das favelas, que não têm voz nem espaço, são rendidos, afrontados, têm suas crianças sob a mira de pistolas e fuzis, suas casas invadidas, enfim, cidadãos que têm seus direitos desrespeitados. Cidadania esta, desconsiderada pela força policial que deveria protegê-la e resguardá-la.
Diante disso, o mais chocante em toda essa polêmica gerada pelo filme é a legitimação e a aceitação pública manifestada pelos espectadores diante do uso de métodos de tortura, humilhação, constrangimento de moradores vistos como suspeitos, truculência exagerada e a propagação da morte por entre as casas, ruas e becos das diversas favelas e espaços populares da cidade.
A seqüência de irregularidades, crimes e violações cometidas pelos oficiais do Bope, espancamentos, torturas, execuções sumárias, invasão de domicílios sem mandato de busca, dentre outros, e sua aprovação pública evidencia que, no Rio de Janeiro, estamos mal. Mal de polícia, estamos mal de segurança pública e, o que é pior, de tão mal, já distorcemos o entendimento do que pode ou não ser considerada uma tropa de elite.
quarta-feira, 3 de outubro de 2007

No dia 5 de outubro vencem as concessões de importantes emissoras de televisão do país, as cinco da Rede Globo - São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Brasília, as da Bandeirantes, Gazeta, Record e TV Cultura de São Paulo, entre outras. Para continuarem operando os canais que lhe foram outorgados pelo Estado, o governo federal precisaria autorizar e o Congresso Nacional sancionar essa renovação. Na prática, isso não acontece. Diferente de todos os outros setores, não há obrigações das concessionárias do serviço de radiodifusão. Em qualquer concessão pública há deveres estipulados em contrato. Mas na radiodifusão sequer podemos ter acesso aos contratos, apesar de serem “públicos”.
Globo MenteManifestação cultural contra a renovação automática das concessões públicas de rádio e tv
Dia 5 de outubro, sexta-feira, a partir de 17h
Ato público no Buraco do Lume (Centro do Rio de Janeiro, próximo ao Castelo, entre a Rio Branco e a 1º de Março). Exibição dos vídeos: a História da Rede Globo (inédito, com cenas do apresentador do SP/TV anunciando o comício das diretas como sendo uma festa pelo aniversário de SP e o Moreira Franco dando depoimento como vencedor da eleição que o Brizola ganhou. Imperdível!), Manual Rádio Livre, Hélio Costa e os japoneses contra Seleção Digital Brasileira. Música e debates ao vivo. Gravação de vídeo cabine, colocando o povo de protagonista. Participação de diversos movimentos sociais. Além de distribuição de materiais e jornais alternativos.
Programação da Semana Nacional pela Democratização da Comunicação do Rio [de 3 a 9 de outubro]
Dia 03 de outubro - quarta-feira
9h – Abertura da Semana Nacional pela Democratização da Comunicação no Rio com a realização de programa, ao vivo, na rádio comunitária do Morro do Estado, em Niterói, e gravação de vídeo cabine no morro.
13h - Vídeo cabine no Instituto de Artes e Comunicação Social da UFF (Rua Lara Vilela, 126, Ingá).
16:00 - Vídeo Cabine na praça Araribóia (em frente as Barcas de Niterói) com gravação de depoimentos, teatro e panfletagem.
19:00 – Exibição do filme Tapete Vermelho (comédia em que Quinzinho [Matheus Nachtergaele] tem uma promessa a cumprir: levar seu filho à cidade para assistir a um filme do Mazzaropi) seguido de debate com Adriana Facina (professora de História da UFF e Observatório da Indústria Cultural) e Movimento de Niterói para salvar o Cine Icaraí. Local: Teatro do DCE-UFF, Centro de Niterói, perto do Plaza.
Dia 04 de outubro - quinta-feira
14:00 - Realização de Programa da TV Comunitária de Niterói sobre a Semana Nacional pela Democratização da Comunicação, com exibição do material das vídeo cabines. Local: IACS – Rua Lara Vilela, 126, Ingá, Niterói.
17h: Debate UFF- Mestrado Ciência da Arte – Concessões e sua relação com a produção da teledraturgia – IACS 2 (rua Tiradentes, 148, Ingá, Niterói) – Heloísa Toledo Machado, Sergio Santeiro, Antonio Moreno, Octavio Bezerra, Noilton Nunes, Gustavo Gindre e Rafael Duarte.
20:00 – Exibição do programa Comunicação Popular na TV Universitária de Niterói com a participação de diversos movimentos sociais e entidades do movimento estudantil falando sobre a concentração da comunicação no país, os assuntos e lutas que a mídia comercial esconde e a formação do pensamento único. Local: Estúdio grande da Unitevê, IACS – Rua Lara Vilela, 126, Ingá, Niterói. Quem for participar do programa ao vivo (todos estão convidados!) chegar até 19:30h.
Dia 05 de outubro - sexta-feira
21:00 - Ato em Defesa da Transparência das Concessões de Rádio e Tv, no Sest-Senat de Barra Mansa
Dia 07 de outubro – domingo
12:00 - Panfletagem de jornais alternativos na Praia de Ipanema - Posto 9
Dia 08 de outubro - segunda-feira
12:00 - Panfletagem de jornais alternativos no Bandejão da UFF – Campus do Gragoatá, Niterói
17:00 – Panfletagem de jornais alternativos na Central do Brasil – em frente à saída do metrô
Dia 09 de outubro – terça-feira
14:00 - Debate sobre a contribuição das rádios comunitárias para o desenvolvimento social - projeto de pesquisa do curso de comunicação social da UFF, orientado pelo professor Adilson Cabral – Local: IACS – Rua Lara Vilela, 126, Ingá, Niterói.
19:00 – Reunião de articulação do movimento pela democratização da comunicação do estado do Rio. Democratizar a comunicação para transformar a sociedade! Local: Rua Joaquim Silva, 56, 9º andar, Lapa.
21:00 – Programa Especial de Encerramento da Semana de Democratização da Comunicação na TV Comunitária do Rio. Ao vivo! Local: Rua Joaquim Silva, 56, 9º andar, Lapa.
Mais informações sobre a Semana:
Rafa (9879-8076/rafa_doliveira@yahoo.com.br)
Claudia (9616-1447/claudiaverde@yahoo.com.br)
terça-feira, 2 de outubro de 2007
Cadê tu, homi??
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
A pergunta que não quer calar
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- Não satifesito com a Tereza Cruvinel na presidência da TV Pública, o governo nomeou para Diretora de Jornalismo a Helena Chagas - ex-Globo, assim como Tereza Cruvinel e (não custa lembrar) Franklin Martins. Oxe! Oxe! Oxe! Oxe!
- A pergunta que não quer calar: Será a TV Pública uma sucursal das organizações Globo?
- Se o Bispo Macedo, paladino da DEMOcratização da comunicação fica sabendo, vai exigir um bispo no conselho da tal emissora. O que eu acho muito justo. Já que não temos uma emissora nem pública, nem democrática, que ela seja pelo menos ecumênica. Ê parreia!!!!
sábado, 29 de setembro de 2007
Democracia e Democracias
"Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão"
Chico Buarque - Apesar de Você
Escrevo motivada por um texto do professor Gilson Caroni Filho - A necessidade de uma nova imprensa - publicado na Carta Maior. Vejamos um trecho:
“Cabe ao campo democrático-popular não alimentar ilusões. Se os meios de comunicação são fatores centrais e constitutivos de uma nova esfera pública em formação, não se deve esperar conversões éticas de uma imprensa cuja estruturação está umbilicalmente ligada ao destino de conhecidas oligarquias. (...). Com a experiência acumulada em veículos como Carta Maior, Caros Amigos e Brasil de Fato, entre tantos outros, talvez tenha chegado a hora de investir em um grande jornal de esquerda. (...) Essa é a questão central da democracia brasileira. Precisamos inventar a imprensa democrática”.O texto me instiga por duas razões: primeiro porque desvincula a reestruturação da mídia do mito de que ela pode ser “reformada de dentro” e segundo porque fala em democracia.Algumas reflexões a partir disso:
1. Cansei! Cansei dos que defendem que é possível mudar a imprensa com bons profissionais lá dentro. As pequenas concessões feitas pela grande mídia são falsas, esvaziam o conteúdo histórico daquilo que reproduzem, descontextualizam atores sociais. Pensemos em quando, por exemplo, retratam a favela e seus “aspectos bons”, para poder escapar da crítica de que a favela é sempre estigmatizada. Saem os estigmas de cena, para entrar idéias vazias, espetaculares e fantasiosas. Lembro de uma amiga que assim definia o “Central da Periferia” da Regina Casé: “Parece que favelado é um bando de chimpanzé adestrado fazendo graça no Fantástico. Um bando de pobre conformado que se vira como pode”.
2. Outra imprensa, outra mídia é algo urgente sim. Não tenho dúvida. Mas, não acreditemos que apenas novos canais irão resolver o problema da comunicação. Não vão, minha gente. Não vão, porque mais do que o monopólio dos meios, a classe dominante possui o monopólio da verdade. E isso, não se rompe com novos canais. Isso se rompe com consciência crítica, com idéias, com uma nova visão de mundo, que também não brotarão de novos canais, o que não tira destes a possibilidade de atuarem na formação daquelas. No entanto, essa responsabilidade não é só dos meios de comunicação.
3. Por último, acho que entender a libertação do monopólio comunicativo dissociado da transformação social, como se fosse um processo sem conflitos e linear, é uma armadilha do nosso tempo. Não se trata de “democratizar a comunicação”, porque democracia não é um princípio ontológico, que vai se projetar da sociedade civil em direção à sociedade econômica. Democracia é um sistema político, é mais do que sufrágio universal, é mais do que uma comunicação não monopolista. Por outro lado, estou de acordo com Gilson, à medida que estou segura de que para vivermos em uma democracia efetiva romper com a estrutura comunicacional vigente é fundamental. Mas, não acreditemos que é suficiente. E será muito pouco, se não for associado a uma ação política transformadora.
PS: Nunca é demais lembrar: dia 05 de outubro vencem várias concessões públicas de grandes grupos, como Globo e Band. Manifestações estão sendo articuladas por todo país. Informações em: fazendomedia.com e direitoacomunicacao.org.br
PS2: O Presidente Lula, em mais um capítulo de sua relação oligofrênica com a grande mídia, nomeou Tereza Cruvinel, da Globo, para presidir a TV Pública. Lá se vão 5 anos de uma bela história: eles batem, ele recua. Eles batem mais, ele faz um agradinho.
PS3: Melhor do que a Tereza Cruvinel, só o capítulo em que ele na inauguração da Record News falou da sua certeza em relação ao compromisso do Bispo Macedo e da nova emissora, com a "DEMOcratização da comunicação". Ê parreia! Vai de reto!
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
licorado
quando diz
e traz
o que me detêm
gosto da arte
que diz-explode
bem mais além
gosto de coisas
que lembram a morte
no que a vida nos
retêm
gosto de gente
que vive e fala
o que lhe convém
gosto daquilo
e tudo outro
que me faz bem
gosto de tanto
e tudo outro
que vai além...
amarula!!!!
pois é...
pois é
mal o galo cantou...
cansei...
e antes que, os mais afoitos, mandem-me tomar no cu,
explico:
cansei dessa minha visão que não encontra irmão nessa tosca amplidão tupiniquim...
e ainda que perto e em redor ecoem minhas pulsações:
tão
só
me sinto
tão
só.
não
só
de beijo amor tesão
só
de cor flor chão
que só
assim
então
dê-me
redenção
ou qualquer coisa que não
me deixe assim tão
só
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
Piratas do Caribe...
Enviado por João Cuenca, O Globo, 27/09*
Se precisasse definir o Brasil numa frase, diria que é o país do perdão. O país da anistia ampla, geral e irrestrita. Anistia que, em lei aprovada pelo governo Figueiredo, não somente livrou a cara dos perseguidos pela ditadura entre 1964 e 1979, mas que também abriu as asas da liberdade aos perseguidores e criminosos "oficiais". Neste país de consciência livre, estupradores, torturadores e assassinos hoje jogam peteca na praia de Copacabana e curtem sua tranqüila aposentadoria. Depois de encher os bolsos, mandar bater e lotear estatais por duas décadas com sobrinhos com dificuldade de aprendizado, os milicos têm a vida que pediram a Opus Dei.
O Brasil, e isso costuma chocar mais nossos companheiros latino-americanos do que a nós mesmos, é o país mais atrasado do continente quando se fala em punir os responsáveis pelos abusos cometidos pelo regime militar. Para o bem da "paz e harmonia nacionais", o governo e a sociedade preguiçosa abaixam as orelhas e deixam pra lá. No país da anistia, tudo é perdoado com esquecimento. O que aconteceu deixa de ter acontecido, como se a roda da história se alimentasse de si mesma, num processo autofágico e irreversível.
O custo dessa amnésia tão simpática e conveniente é alto. Esse déficit moral faz com que o brasileiro aceite a idéia de tortura e violência policial como quem come um pastel de carne moída.
***
Escrevo esses parágrafos, como vocês devem imaginar, movido pela experiência de assistir à pré-estréia de "Tropa de elite", na última quinta-feira, no Odeon. Além da equipe do filme e usuais papagaios de pirata, a sessão contou com a presença, in loco, de Harvey Weinstein, criador da Miramax, vencedor de 45 oscars, produtor de blockbusters como "Pulp Fiction" e "Senhor dos Anéis" e, claro, co-produtor de "Tropa de elite". Weinstein, segundo perfil publicado pela New Yorker, é conhecido como "Harvey mãos de tesoura" pelo seu hábito de interferir na montagem dos filmes que produz. Imagino que não tenha sido o caso.
Poderia entrar no mérito exclusivo do filme e dizer que é impecável no que se propõe e que, apesar (e por causa) da pirataria, será um sucesso de bilheteria estrondoso. Ainda poderia escrever que "Tropa de elite" na maior parte do tempo parece um institucional nauseante do BOPE - no final, só faltou o "Aliste-se já!". Apesar disso, levanta algumas lebres, dá um par de tiros certeiros e deixa pelo menos uma cena na memória - aquela do policial Matias invadindo uma passeata pela paz na PUC.
Ao mesmo tempo, o filme é de um reacionarismo que talvez não tenha paralelos na história do cinema nacional. O texto é claro como pó de mármore: o tráfico de drogas é um câncer, a elite branca é hipócrita, a PM é corrupta, e o BOPE é incorruptível. Só o BOPE, através de seus imaculados princípios, nos salvará das trevas. E para isso, tem certas licenças nada poéticas - a tortura é a principal delas. Eles, que são puros, fazem o serviço sujo que nós, hipócritas de classe média, não encaramos. A lógica do discurso policial que "Tropa de elite" reproduz é cristalina.
O problema começa quando esse monstro disforme chamado opinião pública faz uma leitura do filme que corrobora esses métodos e valores. E aí, "Tropa de elite" pode perigosamente entrar para a história como o filme da geração "Cansei". O público torce pelo herói torturador e mata com ele, tortura com ele, em repetidas cenas à la Abu Ghraib - ou "Guantanamo no Rio de Janeiro", como disse meu amigo Daniel Alarcón. As celebridades enfiadas em black-tie aplaudem cada porrada, num frisson de adrenalina, e todos se convertem instantaneamente em perfumados torturadores de gabinete.
Depois, é claro, sabe-se que vem o perdão, nossa querida e mui conhecida anistia, para o torturador assassino justiceiro e para nós, apêndices conexos dessa violência, como diz a lei número 6.683. Porque, para o bem da "paz e harmonia nacionais", os fins justificarão os meios até o (nosso) fim. Enquanto isso, o pastel de carne moída segue descendo bem pela goela de todos. O uísquinho servido em coquetéis de estréia como a de "Tropa de elite" pode ajudar.
'Tropa de Elite é fascista?' Arnaldo Bloch
Pelos gritos de caveira na estréia e os urros sensuais da platéia, sei não...
Há algo de muito, muito hipócrita, no reino de euforia que cercou a estréia do filme mais celebrado da história do cinema brasileiro. A começar pelo discurso do diretor José Padilha, que perguntou à platéia que jorrava das fileiras do Odeon, quem já tinha visto o filme, "só por curiosidade". Quatro honrados gatos pingados levantaram as mãos, confessando-se piratas. O restante, em ato de alta covardia coletiva, emudeceu, e fez-se um silêncio sepulcral no palácio cinematográfico na Cinelândia.
Com a maior credulidade do mundo, sem qualquer signo de ironia, Padilha, herói de todo um Brasil de honestidade, retribuiu:
- Que bom! Uma platéia virgem!
Risadas, festa, alegria, quel esprit! Sentado no balcão lá atrás, bem malocado (o termo é proposital) dos holofotes, não resisti e gritei a plenos pulmões, ou o que resta deles, maltratados que foram no tempo remoto em que fumava (tabaco, é claro, imaginem!):
- Bando de mentirosos!
Claro que, afora aqueles dois otários (coitados, pensaram que iam ser maioria...), ninguém dos 800 vultos que hiperlotavam o cinema, apertando-se nas escadas e no chão, ia ser besta de assumir o ato de contravenção, ainda mais que estava lá o Secretário de Segurança, outro que emudeceu.
Se assumissem, como é que iam depois ter cara para gritar "caveira" em corinho (quase vomitei o pastel de cordeiro, delicioso, que comi antes) à medida que o capitão Nascimento, o nosso Rambo do Bope (magistralmente interpretado por Wagner Moura) ia se sagrando herói da noite, libertador de todos os medos e de todas as culpas, vingador natural de todos os corações desprotegidos, resultante transcendente de todo o bem e todo o mal ?
Não foi à toa que parte do público sentiu-se à vontade para gritar o lema da tropa corrupta e matadora. Afinal, ao optar pelo capitão Nascimento como narrador do filme, Padilha assumiu, de maneira sistemática, acrítica e quase pedagógica - e justificou para a média reacionária da sofrida sociedade espectadora - o discurso e o ponto de vista do que há de pior na corporação, o discurso da pseudo-razão enlouquecida dentro da loucura institucional, o discurso do "não há saída, tem mesmo é que matar." Tudo no filme que não é o discurso do Capitão Nascimento soa ridículo, risível, até porque os demais personagens são extratos estereotipados numa narrativa que se quer naturalista, mas crivada de cortes que de abrangentes nada têm.
Assim, no filme de Padilha, só a classe média-alta universitária de Zona Sul consome maconha e cocaína. Esta classe média-alta (a "galera"), para fazê-lo, necessariamente, e até com uma certa boa disposição de espírito, trava as melhores relações com o comando do tráfico, descarregando sua culpa burguesa em ongs-fantasia que nada mais são que organismos-títeres da alta bandidagem.
Curioso que, num filme tão up to date, tão distribuído por tantas majors (aliás, quando apareceu "Universal Pictures" na tela, teve gente quase esvaindo de gozo), as várias discussões sociológicas que se travam sobre a questão da violência policial (no âmbito da universidade onde estuda a bandidagem burguesa, no caso, a PUC) não há uma sílaba sequer referente a teses modernas, como a liberação do consumo de drogas, hoje altamente aceitas, ao menos como tema de debate, em qualquer foro, mas não na sala de aula retratada por Padilha, onde só há viciados alienados, com exceção do policial Matias, que conhece a realidade.
A preocupação obsessiva de Padilha é com o baseado que a galera queima, reforçando a tese surrada de que os maiores culpados pela violência do tráfico são os usuários (todos, naturalmente, burgueses). A cada menção desta abobalhada burguesia com "consciência social" (as aspas são do cineasta), gritinhos histéricos eram ouvidos em redutos da plateia, reforçados por palmas tímidas que logo se ocultavam ante a não-aderência (felizmente!) da massa presente. E ao final, quando o aspirante Matias se transformou num "policial de verdade" (leia-se: quando abandona seus princípios e aceita a tortura a crianças como método válido para seus nobres fins de vingança contra el capo) uma ovação aliviada consagrou "Tropa de elite" como porta-voz de nossas inquietações. E dá-lhe "caveira"!
Em artigo ao Globo, Wagner Moura diz que 'Tropa de elite' não é fascista
Publicada em 25/09/2007
Escrevo instigado pelo bom texto do Arnaldo Bloch sobre a sessão de estréia de "Tropa de elite". E respondo categórico à sua pergunta: Não, "Tropa de elite" não é fascista. Não é possível que alguém que tenha visto "Ônibus 174", um dos filmes mais humanistas dos últimos tempos, possa achar que o Zé Padilha (o diretor) tenha feito um filme fascista. Mas também fico preocupado quando vejo o capitão Nascimento ser tratado como herói. Fico pensando como reagiria ao filme uma platéia sueca. Não creio que pensariam naqueles policiais torturadores como heróis, assim como muita gente que vê o filme aqui também não pensa. Talvez os suecos não precisem de heróis. Talvez, aí sim uma tragédia, fascistas estejamos nos tornando nós, brasileiros, cidadãos carentes de uma política de segurança pública qualquer, que vemos naqueles policiais honestos, bem treinados, mas desrespeitadores dos direitos humanos mais elementares, a solução para o caos em que estamos metidos. Compartilhei contigo, Arnaldo, a vontade de vomitar o pastel de cordeiro no Odeon. Mas, na minha opinião, "Tropa de elite" contribui com o mais importante em épocas de crise: o debate (inimigo do fascismo). O filme traz um ponto de vista fundamental para se entender e discutir segurança pública, o olhar do policial. Eu, particularmente, discordo do capitão Nascimento em quase tudo, mas não posso deixar de ver a importância de entender seu pensamento como fundamental para o debate sobre violência no Brasil, já que é ele, assim como os traficantes e os moradores de favela, quem vive diretamente essa guerra particular, como nos ensinou, não por acaso, o capitão Rodrigo Pimentel, roteirista do "Tropa de elite", no seminal "Notícias de uma guerra particular", de João Moreira Salles.
Acho que o "Tropa", além dos méritos artísticos que tem, talvez já seja o filme pós-retomada que mais suscitou debates, a começar pela questão da pirataria, exaustivamente discutida. E não vejo, no Brasil de hoje, debate mais importante do que violência e segurança pública. Segurança pública não tem mais a ver só com a tragédia das vidas que se vão por conta da guerra polícia-tráfico-com-moradores-no-meio. Tem a ver, por exemplo, com aumento de verbas para a Previdência e para a Saúde. E, quando falo de violência urbana, quero lembrar que se para nós, moradores da Zona Sul, maioria na sessão do Odeon, a chapa já tá quente há muito tempo, imaginem para quem não pode sair de sua casa por ordem de um traficante, quem tem que passar a noite no chão com medo de bala perdida, quem é esculachado e desrespeitado pela polícia, quem não pode falar com o parente da comunidade vizinha por ordem do poder oficial, ocupante do vácuo deixado pelo poder instituído que, por sua vez, vem historicamente negligenciando essas pessoas. Isso é um fato: as maiores vítimas da violência urbana no Brasil são os moradores das favelas, e o filme mostra isso. Estou convicto: não há armas mais poderosas de combate à violência do que educação, cultura, lazer, esporte, bem-estar social e geração de emprego. É assim que o capitão Storani, oficial do Bope reformado que nos auxiliou no treinamento para o filme, tem tentado combater a violência em sua gestão como secretário de Segurança num município da Baixada. E, mais uma vez, recorro ao capitão Pimentel, na maravilhosa entrevista a João Moreira: "Enquanto o único braço do poder público que sobe a favela for a polícia, não haverá solução."
Pimentel foi também o primeiro policial que eu vi defender a legalização do consumo de drogas, que o Arnaldo reclamou não constar nos debates do núcleo PUC do filme, onde o Zé Padilha estudou. E acho que já passou da hora mesmo de discutir esse assunto com honestidade. Capitão Nascimento põe sua vida em risco todos os dias para lutar uma guerra inútil contra o tráfico e responsabiliza os consumidores pela sua tragédia pessoal. Essa tem sido inclusive uma bandeira defendida por órgãos oficiais de combate às drogas. É lógico que há uma responsabilidade individual nisso, e eu conheço muita gente que deixou de fumar maconha para não alimentar o tráfico. Mas não creio que essa campanha seja mais eficaz do que a legalização do consumo. O uso de drogas existe desde que o mundo é mundo e não vai ser a repressão que vai acabar com o consumo. Mas a legalização pode acabar com o tráfico. Eu vejo o consumidor como o elo mais fraco da cadeia. Combatê-lo é contraproducente. O abuso e o vício devem ser tratados como problemas de saúde pública. O tráfico é que é questão de segurança pública. É o tráfico que arrasta os jovens de periferia para a morte e tenho certeza de que morre muito mais gente na guerra do tráfico do que de overdose. De que forma fazer, eu não sei, mas acho que já passou mesmo da hora de discutir o que me parece óbvio e acredito que o filme contribui com isso. Só mais um dado: sabe de quem partiu a idéia de legalizar as drogas na Holanda? Da polícia, parceiro.
