quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Sobre a ausência (para Clê) (ou não) (TOMARA!)

Clê...

esses teus versos quentes sobre a ausência me remeteram a essa poesia do mineiro de Itabira que divaga no posto 6 de Copa (apesar de não ser fâ de praia, ao que me consta).

São versos frios e resignados... diferentes dos teus... mas lindos como (sei lá) o quê...

AUSÊNCIA

Carlos Drummond de Andrade


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Sobre a arte de legislar

Hoje de manhã o governador Sérgio Cabral foi a uma formatura de inspetores penitenciários e falou muita besteira. Vamos a elas.

Ontem o Instituto de Segurança Pública divulgou dados que reúnem números da violência no Rio de Janeiro. Segundo o relatório, o número de mortes em confronto policial subiu 18,53%, confira em:
www.isp.rj.gov.br/resumoaisp/2007_12/web/estado/estado.htm

Questionado sobre as mortes e a notável política de “guerra” adotada em seu governo, Sérgio Cabral disse que a polícia não matou tanto e apelou, como costuma fazer, para o bizarro: “Se a criminalidade reagisse entregando as armas e pedindo desculpas pela barbaridade”. Em seguida, entrou no barco da espetacularização midiática e relembrou os casos de João Hélio e o do médico Lídio Toledo Filho. É como se dissesse que perseguir criminosos descalços e desarmados fugindo como pintos na favela da Coréia é necessário para que nossa sociedade justa e praiana se vingue e se faça cada vez mais justa e praiana.

Ao falar do Lídio Toledo, o governador boa praça (vive nas colunas sociais, é amigo de apresentadores narigudos e elogiado por eles em eventos de empresários donos de barcos de luxo) defendeu lei que pretende criar, proibindo que motos andem pelas ruas do Rio de Janeiro com duas pessoas. O diretor do Denatran nem deve ter dormido essa noite, se acabando de rir do nível de insanidade do governador. Pois bem, hoje o diretor afirmou aquilo que todos já sabem: lei insana, inconstitucional e só existe na cabeça do Cabral (até rimou).

Tentando defender sua lei, o governador afirmou que o diretor é um “burocrata de plantão” ao invocar a ilegalidade da tal lei, que vai contra o Código Nacional de Trânsito. Mais uma vez, Cabral questionou a falta de autonomia dos Estados e como só ele sabe fazer, apelou - à bestialidade: “Como pode o Rio e São Paulo ter a mesma legislação de Rondônia?” Fosse eu jornalista e lá estivesse, teria respondido que pode, porque isto é um país, uma R-E-P-Ú-B-L-I-C-A F-E-D-E-R-A-T-I-V-A e que é natural que algo tão irrelevante como legislação de trânsito seja nacional.

Eis o estilo de governar do mandatário. Crimes hediondos que valem espetáculo e que assolam as elites ou a classe média, resultam em lei. Matam João Hélio, ele levanta a bandeira da redução da maioridade penal. Assaltam Lídio Toledo Filho e o deixam tetraplégico, ele inventa a lei da moto-só-pra-um. Imagino que se essa não der certo ele vai lançar uma que proíbe motoqueiros. Mas, se me perguntasse, eu daria a seguinte sugestão: proibamos que as pessoas andem pelas ruas, assim não haverá mais risco de assaltos. Afinal, com Internet, quem precisa sair de casa? (Nem vou lembrar do dia em que ele defendeu o aborto como forma de combater a violência, porque vão pensar que quero ridicularizá-lo).

Sem falar na desculpa absurda da falta de independência estatal no momento em que seus devaneios são barrados pela legislação nacional. Cariocas, uni-vos para dar graças à constituição, vossa protetora.

Fosse o Rio de Janeiro quintal do Cabral e não unidade da federação viveria-se num paraíso: combate eficaz ao crime, maconha liberada, escritórios de frente pra praia de Copacabana com rede wi-fi como cortesia do Serginho e motos mais folgadas. Sobrou algum problema?


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P.S.: nada a ver com o post, mas a música do momento chama-se Desafinado, de João Gilberto. Todo mundo deveria escutar, eu disse, todo mundo.

Se você insiste em classificar
Meu comportamento de anti-musical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é Bossa Nova, isto é muito natural
O que você não sabe nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração

sábado, 5 de janeiro de 2008

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Da ausência

Para quem ama, não será a ausência a mais certa, a mais eficaz, a mais intensa, a mais indestrutível, a mais fiel das presenças?
Marcel Proust

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Abstrato


Combustão

Tua ausência é copo vazio
Sofro sem um gole de você
De quem me entorpece
Me cerveja como um vadio
Me martini na medida certa
Me conhaque nos dias de frio
Me tequila nos instantes de loucura
Me vinho nas noites solitárias
Você que me tortura
Você que me entorta
Me embriaga
Me suporta
E numa dose me cachaça

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Vamo que vamo

Eu não gosto muito dessa época do ano. Por vários motivos. Esse clima de falsidade e hipocrisia que toma conta das pessoas me irrita. Dá vontade de sair gritando: gente, nada muda depois do dia 25, e pior, a vida segue igual na virada do dia 31 pra 1º. Acho também que o mundo acaba ficando em segundo plano, como se o movimento dele parasse e só se retomasse em janeiro. Pior, em 2008 o carnaval é no comecinho de fevereiro. Ou seja, as pessoas só voltam a levar a vida a sério depois da quarta-feira de cinzas. Na verdade, não tenho nada a ver com a vida das pessoas. O que quero dizer é que os problemas do mundo deixam de ser discutidos e questionados em dezembro como se tivessem sido resolvidos e daí vivemos meses de árvores de natal, comida em excesso, espumantes e roupas brancas. Além disso, odeio especiais de fim de ano na TV. Odeio não ter futebol às quartas. Odeio ter que ir ao shopping (sempre tem amigo oculto na minha família e não há outro lugar para comprar presentes que agradem a meus familiares).

Enfim... mas muitos fins de ano ainda terei pela frente. Há que se conformar e aproveitar que tá fazendo sol - sinal que vai chover no ano novo, pra variar.

Dura na queda
Chico Buarque

Perdida
Na avenida
Canta seu enredo
Fora do carnaval
Perdeu a saia
Perdeu o emprego
Desfila natural

Esquinas
Mil buzinas
Imagina orquestras
Samba no chafariz
Viva a folia
A dor não presta
Felicidade, sim

O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas

Bambeia
Cambaleia
É dura na queda
Custa a cair em si
Largou família
Bebeu veneno
E vai morrer de rir

Vagueia
Devaneia
Já apanhou à beça
Mas para quem sabe olhar
A flor também é
Ferida aberta
E não se vê chorar

O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol,a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Bodes, favelados, cabeludos, jornalistas e outros pagodes

Poucas coisas na vida são tão boas, causam tanto prazer e alegria como...
uma cerveja + um tantã + um pandeiro + um cavaquinho + bons amigos!!


Coisa de pele
Jorge Aragão

Podemos sorrir, nada mais nos impede
Não dá pra fugir dessa coisa de pele
Sentida por nós, desatando os nós
Sabemos agora, nem tudo que é bom vem de fora


É a nossa canção pelas ruas e bares
Nos traz a razão, relembrando Palmares
Foi bom insistir, compor e ouvir
Resiste quem pode à força dos nossos pagodes

E o samba se faz, prisioneiro pacato dos nossos tantãs
E um banjo liberta da garganta do povo as suas emoções
Alimentando muito mais a cabeça de um compositor
Eterno reduto de paz, nascente das várias feições do amor

Arte popular do nosso chão...
é o povo que produz o show e assina a direção
Arte popular do nosso chão...
é o povo que produz o show e assina a direção

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

A vingança do baiano

Em 1994, fiz com Miss Lilly, a pedido da agência DPZ, o livro São Paulo de Bar em Bar. Visitamos uma centena - um deles, o bar Ca­bral, nos elegantes Jardins. O dono, quando Miss Lilly perguntou sobre a clientela, rela­cionou alguns figurões e arrematou: "Uma coisa eu digo: baiano aqui não entra." Disse com aquele nojo que certos magnatas das classes dominantes devotam ao povo. Mas por que me lembrei disso? Ah, sim. Em outu­bro, numa esquina paulistana, um "correria" apontou revólver para o apresentador de tevê Luciano Huck e fugiu na moto levando-lhe o Rolex que, segundo as notas que li, vale uns cinco barracas na favela.

Huck escreveu na Fo­lhona artigo que causou rebuliço, ao desabafar e cobrar ações das autoridades. Muitos o apoia­ram, e muitos fizeram troça, como dizer que Huck precisou ser assaltado para descobrir a desigualdade que grassa.

Na seqüência, a Folhona publicou artigo justo do escritor do Capão Redondo, o colega de hospíoio Ferréz, que resumiu: o correria levou o Rolex que vale várias casas no peda­ço em que ele mora, e Huck ficou com o bem maior, a vida - ou seja, concluiu Ferréz, todos saíram ganhando.

Mas o que tem o bar Cabral a ver com a história? O dono dele era Luciano Huck. Ima­gino então que algum baiano soube da histó­ria que narrei e veio cobrar um Rolex por "da­nos morais".

Mylton SeverianoPublicado originalmente na Revista Caros Amigos (ano XI número 128 novembro 2007, p.11)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Isso existe no Brasil?

Fazendeiros e políticos de Juína (MT) impedem visita de ativistas do Greenpeace, da OPAN (Operação Amazônia Nativa) e de jornalistas europeus à Terra Indígena Enawene Nawe. O ocorrido foi no dia 20 de agosto deste ano, há menos de três meses. Absurdo pouco é bobagem.