domingo, 11 de maio de 2008

O primeiro encontro

Havia colocado o celular para despertar quarenta minutos antes do combinado. Era pontual e sempre se orgulhou disso. Calculou que se arrumava em pouco menos de meia hora. Em dez chegava no local do encontro, sem precisar andar muito rápido. Ficavam aí uns 3 minutos para se olhar no espelho e passar na varanda para olhar a rua (sempre fazia isso antes de sair se estivesse tensa ou muito feliz).

Quando o celular tocou sentiu uma leve raiva. Havia conseguido cochilar naquela uma hora depois dos dias de insônia. Mas isso é especulação. Na verdade, ela poderia apenas não querer ir até ele. Ou nada disso. Apenas se irritou com aquele toque irritante:

- Desde que tomou chuva que essa porcaria não liga, não toca direito e toca músicas malucas.

Mudou novamente o toque do telefone. Levantou-se sem pensar em nada, porque certa vez leu que sábio era aquele que vivia sem se perguntar por quê. Não que concordasse com isso, mas a idéia combinava com o momento. Tomou banho, vestiu-se, penteou-se e escovou os dentes. Olhou seu rosto de perto no espelho e por um instante tentou imaginar o que nela havia mudado naqueles anos e o que ele poderia ver de mudança. Rapidamente fechou os olhos e afastou-se do espelho. A idéia de que os sábios não se perguntam voltou à mente e ela voltou a pensar em nada.

De volta ao quarto tentou olhar pouco para o que estava ao redor. Muito do que havia ali faria com que ela caísse na tentação de pensar. Passou seu perfume. Era um bom perfume e a fazia sentir-se segura. Chaves, dinheiro e cartão nos bolsos. Tomou um copo de água e já ia em direção à porta quando lembrou-se de algo. Voltou a passos lentos e parou na varanda. Permitiu-se pensar por alguns segundos, talvez uns dois minutos. Retomou o passo rápido e firme de sempre. As mãos começaram a suar, como de costume. Enxugou-as na calça quando saiu do elevador. Olhou no relógio e havia se atrasado. Andou bem rápido ao encontro dele, sem pensar em nada, enxugando as mãos e por vezes mexendo na orelha (uma mania que tem desde criança). Chegou 5 minutos atrasada e o vê-lo em pé na porta do edifício tentou pensar no que ia dizer. Conteve-se, manteve a decisão de não pensar e seus lábios, sozinhos, disseram:

- Continua pontual.
- Bom ver que você ainda lembra de mim.
- É involuntário. Percebi logo que o exercício de tentar esquecer era em vão.

Ele apenas moveu as sobrancelhas. Cumprimentaram-se e seguiram para a noite que os esperava. Ela sem pensar, ele... Bom, ele é indescritível.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Na hora do expediente

Não nos encontrávamos há muito tempo. Bodão ontem me disse que Faveleiro estaria pelas bandas da Maré e que podíamos tomar uma cerveja. Convenci Capilo a ir trabalhar só por isso. No fim, Faveleiro não apareceu e combinamos de nos ver na terça, num bar em frente a Uerj. Mas eu, Bodão e Capilo não perdemos a viagem. Saímos pra almoçar e aí já era... No fim, a Comunicação ganhou de 5 na sinuca, jogando contra os Direitos Humanos. Bodão meu filho: quem nasceu pra psicólogo, não chega a sinuqueiro. De resto, o expediente hoje rendeu...





Créééuuu

Mesmo para aqueles que não gostam de política, eis aqui um momento memorável que em nada lembra a imunda e inerte politicagem brasileira. Trata-se da resposta dada por Dilma Roussef ao DEMOcrata José Agripino na CPI dos cartões corporativos. A fala é emocionada e concluída de forma brilhante, para não nos deixar esquecer que mesmo a indiferença é uma tomada de posição:

- Eu acredito, senador, que nós estávamos em momento diversos da nossa vida em 70. Eu asseguro para o senhor que eu tinha entre 19 e 21 anos e de fato combati a ditadura.

Como bem disse um amigo no bar ontem, o problema da Dilma é só um: ela é PT.



Leia aqui

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Grande Flamengo...

Pro Bodão, que adora falar do Flamengo, e depois de ontem, merece...

devaneios da madrugada

A insônia deu um descanso, mas voltou por esses dias. O cházinho já não adianta. Daí que ontem, enquanto não dormia, pensava. Nisso, lembrei-me que uma amiga certa vez escreveu uma bela paráfrase de um belo poema do Nicolas Behr. Inspirada nela, escrevi também. Mas não a tenho mais, ela foi escrita em cópia única, como muitas coisas que escrevo. Então comecei a pensar noutra paráfrase, já que conheço bem o poema. Terminei-a agora de manhã.

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Eu nasci para ser uma mulher boa

eu nasci para ser uma mulher boa
- faltaram peitos e bunda -

eu nasci para ser uma boa mulher
- sem saber o que venha a ser boa -

eu nasci pra ser filha de muitos pais, para minha sorte
eu nasci para ser uma boa filha, mas meus pais insistem que falta muito para isso: hei de ser mais vaidosa, arrumar um emprego e ficar mais em casa - mentira
eu nasci para ser a melhor das irmãs, pode perguntar pra ‘elas’
eu nasci para ter muitos irmãos que não são de sangue – algo parecido com os muitos pais
eu nasci para tecer teorias, várias, sobre tudo
eu nasci para gostar de falar sobre comunicação, política e futebol, ainda que, na verdade, não entenda de nenhum dos três assuntos
eu nasci para ser palmeirense e chorar na final do mundial de mil novecentos e noventa e nove, sozinha de joelho, ao ver o gol do manchester
eu nasci para chorar, apenas quando não dá pra disfarçar
eu nasci para gostar de raul seixas e acreditar na sociedade alternativa - 'faça o que tu queres pois é tudo da lei'
eu nasci gostar de ler bula de remédio e manual de instruções
eu nasci para gostar de drummond e ser surpreendida pelo leminski
eu nasci para não gostar de usar letras maiúsculas
eu nasci para dizer que se matar é covardia, assim como ser indiferente - mas se não tiver outro jeito, se mata, eu sentirei saudades
eu nasci para gostar de salgado e de suco de acerola com limão
eu nasci pra odiar cafuné, mas implorar por um carinho nas orelhas
eu nasci para gostar de cheirar cabelos e de recordar o perfume de quem eu gosto
eu nasci para não ter medo de dizer – e não cansar de me arrepender e depois desarrepender disso
eu nasci para ser dramática e piegas, fazer o que?
eu nasci para ser forte – e levar isso à risca
eu nasci para não saber dançar e fazê-lo assim mesmo
eu nasci para escutar a mesma música várias vezes, sem enjoar - e irritar os outros com isso
eu nasci pra gostar de música alta, bem alta

eu nasci para gostar de dormir com um braço embaixo do travesseiro e os pés cobertos
eu nasci para gostar de música, poemas, cerveja e bolinhos de bacalhau – se possível, tudo junto
eu nasci para cuidar de quem está ao meu redor
eu nasci para fazer jogo duro quando querem cuidar de mim
eu nasci para desconfiar
eu nasci para confiar também, claro – sempre desconfiando
eu nasci para ser contraditória
– mal das pessoas inteligentes (frase do paulo francis) -
eu nasci para ser parcial, impacinete, grosseira, longe da perfeição e não me orgulhar disso
eu nasci para que eduardo galeano tivesse mais uma jovem leitora sonhadora
eu nasci para perseguir a felicidade, incansavelmente
eu nasci para ser pouco didática – olha a impaciência –, mas generosa, o que as vezes funciona e me faz parecer legal
eu nasci para ser fria
– mentira, é uma máscara -
eu nasci para ser crítica e irônica
eu nasci para não irem com minha cara e para desconstruir isso depois
eu nasci para sentir saudades: dos amigos, das cidades, dos momentos, das gírias e das manias

eu nasci para jogar mal futebol, mas matar uma bola no peito e fazer o gol sem deixar que ela caísse, num jogo histórico em 2003 na cidade de la paz
eu nasci para ser uma baiana sem sotaque e do mundo
eu nasci para amar meus amigos e beijar, abraçar, andar de mãos dadas e dormir junto com eles

eu nasci para morrer, como todo mundo e viver como poucos
eu nasci para ter um menisco fudido e me machucar sempre que jogar futebol
eu nasci para ser míope e ao frazir a testa enxergar além do óbvio
eu nasci para tentar respeitar a todos
eu nasci para acreditar piamente que outro mundo é possível
eu nasci para reparar nos sapatos das pessoas
eu nasci para ler a primeira linha do livro do cara sentado ao lado no metrô
eu nasci para não entender saramago, sacar pouco de filosofia e ter pé atrás com cinema oriental

eu nasci para começar essa paráfrase uma e vinte e dois da madrugada do dia oito de maio de dois mil e oito, deitada na minha cama e admirando meu teto, como tantas vezes nas últimas noites
eu nasci para ter insônia
eu nasci para te impressionar, para te fazer rir e te fazer companhia quando a festa acabar e o povo partir
eu nasci para lançar uma dúvida: se foi o homem que criou deus, quem criou o homem?
eu nasci para acreditar que tudo passa e se você acha que não, eu te convenço disso
eu nasci para entender de nada e de tudo um pouco, como boa jornalista
eu nasci para reconhecer minhas limitações – esse poema não é meu, e a idéia de parafraseá-lo também não
eu nasci para ter histórias fantásticas para tudo – é só saber contar
eu nasci para admirar o jeito que o bodão escreve e tomar umas cervejas com ele
eu nasci para trabalhar com capilo, ser amiga de algumas pessoas e aguentar o daniel ( lembrem-se dani e capilo: quem entra num poema não morre nunca, dizia mário quintana)
eu nasci para sentir dor e desprezá-la
eu nasci para estar lá quando o humor acabar
eu nasci para passar por aqui e seguir para não sei onde, certa que não volto pra te contar

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Quem quiser ler o Behr,
clica aqui

A vida é feita...

... de pequenas alegrias.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Coisas do acaso...

Lincoln foi eleito para o congresso em 1846 e Kennedy, em 1946. Lincoln foi eleito presidente em 1860 e Kennedy, em 1960. Os sobrenomes de ambos tem sete letras, e Lincoln enfrentou uma guerra civil e Kennedy quase enfrentou uma guerra civil por causa do Vietnã. As mulheres de ambos perderam os filhos concebidos na Casa Branca. Os dois foram assassinados com balas na cabeça, ambos numa quarta-feira. A secretária de Lincoln chamava-se Kennedy e a de Kennedy, Lincoln. Ambos foram assassinados por sulistas e sucedidos por sulistas: Andrew Johnson e Lindon Johnson. Andrew nasceu em 1808, e Lindon em 1908. John Wilkes Booth que matou Lincoln nasceu em 1839 e Lee Harwey Oswald, que teria matado Kennedy, nasceu em 1939. Ambos assassinos eram conhecidos pelos três nomes e a soma de cada um dos três dá quinze letras. Lincoln morreu no Teatro Kennedy, e Kennedy num carro Lincoln. John Boot fugiu de um teatro para um celeiro onde foi preso. Lee Oswald fugiu de um depósito para um cinema onde foi preso. Ambos foram assassinados antes do julgamento. Uma semana antes de morrer, Lincoln passava as férias em Monroe, Maryland e uma semana antes de morrer Kennedy passava as férias com a atriz Marylin Monroe.

frase do dia

Uma garota falando pra outra. Ambas aparentavam uns 13 pra 14 anos:

– Ela também foi uma idiota. Não pode tomar anticoncepcional e não usou camisinha!?

E viva a liberdade sexual.

terça-feira, 6 de maio de 2008

BI-CAMPEÃO!!!!! BI-CAMPEÃO!!!!!

OOOOOÔ!!!!!!!!!! CHORA DE NOVO!!!!!!!!!

MAMÃE EU QUERO,
MAMÃE EU QUERO,
MAMÃE EU QUERO MAMAR!!!!

DÁ A CHUPETA,
DÁ A CHUPETA,
DÁ A CHUPETA PRO BEBÊ NÃO CHORAR!!!!!!!!!






domingo, 4 de maio de 2008

Post da madrugada


Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar.
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)